Violência sexual & Vergonha

Hoje me perguntei como é ser uma mulher que sofreu violência sexual. Doeu me lembrar que já tinha a resposta. 
Tem épocas em que parece não ter importância alguma, noutras dói terrivelmente ao ponto de suicídio ser uma opção - embora já o tenha descartado há alguns anos isso ainda ferve.
Me sinto incapaz de me relacionar de forma plena com alguém, mesmo que essa seja minha maior vontade agora. Sinto medo, necessidade de me proteger, chego a ter certeza de que se fosse invisível poderia ser feliz.
Carrego comigo o peso morto de uma criança que desistiu de viver quando sentiu na pele o quão o mundo dos homens pode ser cruel. Que não encontrou abrigo em nenhum lugar e achou melhor se esconder do mundo. E foi o que fiz... 
Fingi ser invisível e 20 anos depois estava eu lá, mergulhada em uma regressão absurda para tentar me lembra o que de tão importante havia acontecido que limitara minha expressão até hoje. Voltei para o pior pesadelo. Que grande merda! 
Já se passaram dois anos e ainda me afogo nele. 
Não dá pra levar a vida como outras pessoas parecem levar. Não está tudo bem. Carrego uma anomalia invisível, me sinto péssima e sinto muita vergonha. Vergonha pela incapacidade de expressar meus desejos. Nos raros momentos que consigo passar pela hipervigilância acesso minha plenitude com toda a intensidade possível pois sei que irá durar pouco tempo, logo fico muda, estática e um turbilhão de pensamentos diversos me consome. Sobra a culpa. Culpa de já ter gasto tanta vida com medo, ter me privado de tantas coisas e de sentir a necessidade de continuar escondida. 
Desejei não ser eu mesma nos últimos dias. Desejei tantas coisas diferentes. Sigo desejando não sofrer. Aceitar. Superar. Não mais desejar morrer. 
Só quero amar, me acolher. Ser. Só. 

Comentários

Postagens mais visitadas